Duas vezes por semana, 19 detentos da Penitenciária Desembargador Adriano Marrey, em Guarulhos, se reúnem durante seis horas para fazer crochê. E no último sábado(21), os alunos do Projeto Ponto Firme teceram um capítulo inesperado de suas vidas ao ter suas criações, elaboradas e confeccionadas dentro do presídio, exibidas na passarela da São Paulo Fashion Week(SPFW), a maior semana de moda do país.
“Damos um suporte. Os detentos têm o mérito de perceberem a arte no trabalho manual e vislumbrarem no crochê essa oportunidade de resgate da autoestima, da confiança e até de uma perspectiva de vida. Nós mostramos um caminho, orientamos, e eles resolvem se querem seguir”, afirma o idealizador e responsável pelo projeto, Gustavo Silvestre.
A ideia da oficina surgiu após uma conversa que Gustavo teve com a Lica Isak, da loja de costura Novelaria, que também oferece vários cursos manuais em São Paulo.
“Eu acredito muito que a educação e as artes em geral têm um papel muito poderoso na transformação pessoal e social, fatores que influenciam diretamente na redução da violência. O Ponto Firme tenta incentivar o potencial humano e criativo de cada detento. Mas é importante ressaltar que nenhuma iniciativa funciona de maneira isolada”, ressalta.
Gustavo, que aprendeu a técnica em uma escola de crochê, conta que se surpreendeu ao perceber que os encarcerados não demonstraram preconceito algum no início da oficina:
“Quando eu cheguei lá, tinham três que já faziam, e ensinavam para os outros”, relembra o designer e artesão, que apesar de ver a mãe, as tias e as avós fazendo crochê, foi aprender a técnica em uma escola.
Hoje, é ele quem ensina todo o processo, mas deixa os detentos na hora de criar:
“Estou ali para motivar todo esse processo criativo deles. Tudo é feito por eles, desde os primeiros pontos até o acabamento final”.
Mais do que lançar tendências, Gustavo acredita que o que foi apresentado na São Paulo Fashion Week é uma visão mais humanista do sistema penitenciário:
“Mostramos peças atemporais. O que é feito à mão não entra ou sai de moda, no meu ponto de vista. Para mim, o crochê é arte”.
Em apenas dois anos e meio de existência, o Ponto Firme já formou cerca de 100 pessoas, com material doado pela fabricante de linhas Círculo S/A. Além de receberem um certificado ao final dos módulos do curso (básico, intermediário e avançado), os detentos têm reduzido um dia de sua pena a cada 12 horas no projeto.










































