Isabella Netto, 33 anos, é uma mulher lésbica, com formação em História e trabalhadora do comércio varejista. Sua vivencia lésbica e umbandista, conduziram a caminhos e debates a partir dos quais sua existência foi reconhecida como um ato político.
Ana Paula Teixeira, a Ana, é mãe, feminista, enfermeira de formação, trabalhadora da saúde pública e militante do SUS. No início de sua formação atuou na rede privada de saúde, onde ficou por 7 anos. Juntas são cocandidatas a um mandato coletivo feminista a vereadora de Guarulhos.
Os mandatos coletivos são uma alternativa para ter uma maior representatividade, participação e exercício democrático. Como foi esse processo de criar um sistema de um mandato coletivo à Câmara de Vereadores de Guarulhos junto com o Partido PSOL?
Bella: Os mandatos nunca são feitos de forma solitária, todos os mandatos envolvem um número enorme de colaboradores. Mas com movimento da Bancada Ativista, que elegeu a Mandata Ativista na Alesp, a gente percebeu como pode ser rico o envolvimento real de pessoas diversas na construção de um mandato. E isso nos inspirou a unir a minha militância com a da Ana, somos de pautas diferentes, com histórias diferentes, enriquece muito a nossa construção, possibilitando de maneira real trazer mais representatividade e responsabilidade a um mandato. O nosso partido PSOL sempre está disponível a dialogar e elaborar propostas.
. Quais são as principais dificuldades de um mandato coletivo, neste caso feminista, uma vez que a política brasileira é um ambiente dominado por homens e o que podemos esperar de um mandato coletivo feminista, para a causa das mulheres no âmbito social, político e profissional?
Bella: Um mandato feminista já tem dificuldades enormes, primeiro que a lógica da construção política não consegue acolher mulheres, que tem como responsabilidade o cuidado e reprodução da vida. Quando falamos sobre um mandado de duas mulheres, é lidar com tudo isso em dobro, mas é também ter como driblar isso de alguma maneira, somos duas, dividimos as responsabilidades, isso nos permite estar em mais lugares, falar com mais pessoas e propagar ainda mais nossas ideias, nossas propostas. A Bella e a Ana é uma candidatura que não enxerga no parlamento um objetivo final, vemos o mandato como o ferramenta de transformação real pelas bases, queremos assegurar nossos direitos que com o avanço da extrema direita estamos perdendo, mas além disso queremos mostrar o quão todo esse processo eleitoral burguês é contraditório, queremos usar desse momento para que cada vez mais mulheres possam se organizar, contar com redes reais de apoio para que nos tornemos cada vez mais donas das nossas histórias e protagonistas da História.
Bella, você enquanto mulher lésbica e umbandista. Deve sentir na pele o preconceito. De que forma podemos intervir nos casos de racismo estrutural para que o Estado seja de fato Laico e seja respeitado?
Eu ainda tenho um lugar muito seguro dentro desses dois aspectos, sou uma lésbica que performa a feminilidade esperada e sou branca. O Conservadorismo evangélico cristão ataca minha existência de varias maneiras, e isso é uma luta constante de valorização da nossa história que tem
uma herança africana e dos povos originários muito mais fortes, mas também muito mais saqueada, deslegitimada e massacrada por uma lógica racista, eurocêntrica e higienista. Lutar contra isso é legitimar nossas vivências e trazer isso pro centro do debate, e como podemos fazer isso, colocando essas pessoas em lugares de poder, câmaras de vereadores é o lugar? Na verdade, ele é também um lugar. Mas o racismo e a lgbtfobia são questões estruturais, e só podemos mudar as estruturas indo na raiz dos problemas, e temos aqui o patriarcado e o capitalismo que nascem com base no racismo, machismo e da LGBTfobia,
A LGBTfobia é um problema social que impacta diretamente no acesso a direitos mais básicos dessa população. Quais propostas no âmbito da diversidade você tem para que nossa cidade seja mais inclusiva?
Bella: Dentro do âmbito municipal, precisamos antes de tudo é encontrar essas pessoas, onde estão os LGBTQIA+ de Guarulhos, acho que disponibilizar equipamentos públicos para eventos, rodas de conversa, encontros para entendermos onde estamos, mapear os empreendedores que constroem os comércios e atividades culturais, além de protocolos de urgência na saúde da nossa comunidade. Para isso o que hoje é uma subsecretária tem que se tornar secretária de fato, para que ela tenha estrutura real pra atender nossa comunidade. Além de tudo precisamos ser aquela pedra no sapato como o PSOL vem sendo na esfera nacional e também estadual, estarmos presente para brigar e barrar todos os retrocessos que estamos tendo que lidar.
Ana, quais são as propostas você tem para que possamos garantir uma saúde de qualidade para todos? E em específico para a população LGBTQIA+, que muitas vezes precisa recorrer a atendimentos na cidade de São Paulo?
O que precisamos é erguer essa bandeira de vida e, mostrar para a população a grandiosidade do nosso sistema de saúde e trazê-lo para o centro do debate, a fim de garantir seu modelo de financiamento e gestão e, tratar os seus vieses. A nossa proposta é dizer não a PRIVATIZAÇÃO, fortalecer a participação popular através do controle social (estabelecido em lei) das Unidades básicas de saúde, fortalecer o Conselho Municipal de saúde de Guarulhos. Hoje temos um Conselho totalmente aparelhado com a gestão Gutti. Temos como meta um SUS 100% público na Cidade. Queremos expandir a Estratégia de Saúde da Família (ESF) e levar a saúde para nossas áreas de vazio assistencial e vulnerabilidade. Em relação à saúde da população LGBTQIA+ e a Mulher Lésbica. Tenho a Bella junto comigo que PROTAGONIZA a pauta nessa cocandidatura. E entendemos da necessidade de protocolos de atendimento específicos na cidade de Guarulhos. Como centros de acolhida com profissionais treinados para esse acolhimento tanto nos centros, como nas Unidades de Saúde. Precisamos de canais seguros de denúncias de abusos e violência. Trabalhando em parcerias com a Assistência Social e a Secretaria de Diversidades que, necessita de fortalecimento e representatividade. Fortalecer o Programa de HIV/AIDS, criando dentro deste a proposta para a população LGBTQIA+. Criar a política de Atenção à Saúde para a Mulher Lésbica, dentro de suas especificidades.
O direito a cidade, tem muito a ver com pertencimento, memória. Como podemos resgatar esse sentimento de pertencimento através da cultura e educação, equipamentos de lazer e mobilidade urbana?
Bella: Quando a gente amplia nossa perspectiva do que é cidade percebemos que precisamos lutar por ela, e pensar cidade pra gente é isso, transformar esse lugar em bem comum. Conhecer e valorizar nossa história como guarulhense é resgatar nossa identidade e pertencimento, mostrar o que temos em comum um com o outro, e pra isso precisamos fomentar educação, fortalecer os equipamentos de cultura como nossos teatros, bibliotecas, centro culturais, fomentar também festas tradicionais, valorizar e possibilitar o surgimento de artistas locais, e artistas das mais diversas áreas, música, teatro, dança, slam, artes plásticas, fotografia. Tem uma fala que diz “Quando tudo for privatizado, seremos privados de tudo”, ela de alguma forma me norteia quando penso em cidade.
Vocês têm alguma proposta para a questão do Sistema Prisional de Guarulhos, haja vista que há uma superlotação do sistema e vários casos de violação de direitos humanos?
Ana: A Pauta do Sistema Prisional é um nó crítico em todo o Brasil. Temos um sistema prisional falido, corrompido, que não reintegra e, que viola os Direitos Humanos. Temos cerca de 40% dos presos no Brasil ainda não foram julgados. Favorecendo as Superlotações. Não temos penas alternativas, não temos opções de trabalho e estudo nos presídios. Então se conseguirmos ao menos, trazer a pauta do sistema prisional para o centro do debate dentro da Cidade de Guarulhos, já teremos um ganho.
Bella: Sabemos que isso é uma questão estadual, mas é muito importante para nós trazer para o debate na cidade o combate a essa lógica da violência policial, esse é mais um dos problemas complexos que não tem resposta simplista ou solução mágica, mas proporcionar para a nossa juventude (sobre tudo a nossa juventude pobre, preta e periférica, que é a mais atingida) oportunidades de estudo, esporte, lazer, trabalho, cultura, dessa maneira conseguimos dar oportunidade e combater essa lógica de encarceramento em massa, além disso, rever a politica de combate as drogas, que no geral serve para prender nossa juventude, trabalhando com politica de redução de danos, de proteção à vida e que o sistema de saúde possa acolher aqueles que vivem em situação de drogadição, pois sabemos que essa situação é uma questão de saúde e não de polícia.
Uma das consequências da pandemia foi o aumento do desemprego e a demissão em massa na zona industrial, e o fato de muitos munícipes recorrerem a empregos fora de Guarulhos. Quais as propostas para geração de renda e empregabilidade em Guarulhos?
Ana: Precisamos fortalecer a pequenas e médias empresas que, foram as que mais sofreram com essa crise e as que mais geram empregos. Além disso, se faz necessário rever as dívidas e COBRA-LAS, das grandes empresas. Temos muitos devedores milionários em Guarulhos. O Psol vem com a Proposta do Polo de tecnologia, que irá fortalecer a geração de empregos nas periferias e para a juventude.
Bella: Batalhar por incentivos para que essas indústrias permaneçam na cidade, mas que esses incentivos tenham em contrapartidas a manutenção e criação de postos de trabalho, porque hoje temos uma lógica de incentivos fiscais dos governos sem contrapartidas reais das grandes empresas, o que temos são grandes acordos de “camaradagem”, mas que não são revertidos em manutenção e valorização dos trabalhadores, sim para gente é importante o apoio da prefeitura para essas empresas mas com contrapartidas reais de manutenção, valorização e ampliação dos postos de trabalho para as trabalhadoras e trabalhadores guarulhenses.
Há propostas para desengavetar e acelerar o projeto de uma universidade pública em Guarulhos, haja vista que a nossa cidade é um dos maiores municípios de São Paulo e que não tem essa autonomia educacional?
Bella: Educação será sempre prioridade, trazer projetos, desengavetar demandas é a nossa função sem a menor dúvida, nossa proposta inclusive é aproximar a população da nossa futura mandata para que os guarulhenses tragam seus projetos, sonhos para dentro da câmara também, mas sabemos que a conjuntura atual com o bolsonarismo e essa extrema direita, propor grandes avanços será uma luta que não dependerá somente da bancada do PSOL. Nossas propostas estarão sempre atreladas a educação pública de qualidade e gratuita, mas somos responsáveis com nosso discurso e não vamos propor soluções simplistas para projetos complexos, isso seria desonesto com os guarulhenses.










































